Cadeados
Te trago na palma da mão.
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida.
Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas.
Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera,
a culpa de um fracasso
quebrado,
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história.
Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou.
Há guardado no papleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada.
Há na garagem de mim
Caixas abertas, varais enozados
E perdas de tempo.
Há, cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto.
Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas.
Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e nunca me livrei.


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