Metade
Era metade
metade insandecida
de se ser.
Era uma metade ludibriada
viva e mágica
firme mas
vã.
Parecia muitas metades
por vezes.
Por vezes
parecia outro
outra
ás vezes era.
Era fúnebre.
Um pé no lodo.
Mas era uma metade.
Tinha pudores falsos
amarrados num medo
atravancados na minha perna
eu,
que muitas vezes fui a minha metade
medrosa.
Parecia morta
constante
Eu nunca soube o botão
da luz
da metade.
quando ela recuava
e me acusava
e me fazia mesmo
mórbida.
Às vezes parecia sorrir
às vezes parecia gemer
às vezes se costurava
e pendurava no meu ombro
o seu peso
a minha metade.
Era tomada da minha sede
e da minha necessidade
era sempre certa
mas era parada
e a voz que já era baixa
foi ficando muda de palavras
ficou apenas as rasuras do rosto
um puxão
uma sombra
um desânimo acompanhado
de um olhar penugento.
Reclamava agora
a metade.
Ficou febril
Ficou mais turva
sem ouvido de riso.
Ficou desistida
ficou plasmática
branca
às vezes me passava
despercebida.
E me parecia uma metade
tão manca de força
que me surpreendi
quando a vi
rir feliz
rir com soltura ausente
com a leveza
de um peso
que me deixou
rir rir e rir
radiantemente e explicitamente
para outros.
Ria e ria
ela,
quando ainda ontem havia
chorado seu enterro.

