Friday, June 16, 2006

Metade

Era metade
metade insandecida
de se ser.

Era uma metade ludibriada
viva e mágica
firme mas
vã.

Parecia muitas metades
por vezes.

Por vezes
parecia outro
outra
ás vezes era.

Era fúnebre.

Um pé no lodo.

Mas era uma metade.

Tinha pudores falsos
amarrados num medo
atravancados na minha perna
eu,
que muitas vezes fui a minha metade
medrosa.

Parecia morta
constante
Eu nunca soube o botão
da luz
da metade.

quando ela recuava
e me acusava
e me fazia mesmo
mórbida.

Às vezes parecia sorrir
às vezes parecia gemer
às vezes se costurava
e pendurava no meu ombro
o seu peso
a minha metade.

Era tomada da minha sede
e da minha necessidade
era sempre certa
mas era parada
e a voz que já era baixa
foi ficando muda de palavras
ficou apenas as rasuras do rosto
um puxão
uma sombra
um desânimo acompanhado
de um olhar penugento.

Reclamava agora
a metade.

Ficou febril
Ficou mais turva
sem ouvido de riso.

Ficou desistida
ficou plasmática
branca
às vezes me passava
despercebida.

E me parecia uma metade
tão manca de força
que me surpreendi
quando a vi
rir feliz
rir com soltura ausente
com a leveza
de um peso
que me deixou
rir rir e rir
radiantemente e explicitamente
para outros.

Ria e ria
ela,
quando ainda ontem havia
chorado seu enterro.

Tuesday, June 06, 2006

Adquira-me


Adquira-me em paredes
Em partes dissonantes
Todos os poemas.

Adquira-me em silabas
Letra a letra
Que passar rente a mesa
Das tuas palavras
Embaladas de noite e soltura.

Adquira essa minha inconstância ao andar
Esses acasos vivos em mim
Como um cão acariciado por um desconhecido
Permita-me um carinho alheio
Ao que ofereço no poema

Não quero te prender
Na linha estreita e apertada da forma
Não quero te ditar uma rima
Nem tão pouco que entendas a poesia
Como um sopro que desejas imensamente
Ou simplesmente
Perceber.
Não quero te encher dessas palavras
Repetidas.
Ao poeta não cabe a palavra
Cansada e óbvia
Ditada e redita a toda hora
Nessa confusão barata
Do mundo-boca.

Que queiras conhecer outra palavra alva
Outra palavra branca ou negra
Escondida nesse caderno espaçoso
Sem linhas de excesso
Limpo, liso e preciso.

Aquele verso volto e revolto
Consultado diariamente
Recitado pra si,
Aquela palavra inversa
Que te cerceia
E não sabes
Lembrar o nome.
Aquele sentimento poema
Que te engalfinhas para achar
O sentido

Mas só diz a palavra
Mas a palavra só diz
Mas só a palavra diz

Se eu permitir um espaço
Entre o livro e essa instancia em escrever
Se no visgo da minha passagem
Lado a lado
Vizinho a essa remessa de verso
Solveres
Saliva a saliva
Minúcia a minúcia
Gole a gole
A poesia distante que rápido me evapora
Adquira-me logo.

Há de passar em mim e perante a esses corpos
O poema-labirito
Que negado a adquirir-nos
Pode se enterrar
Em qualquer outra garganta seca .

E pode estar lá morto
Nosso viço-poema
Que quase nada quis
Dilacerado numa parte-página
Em branco.

Monday, June 05, 2006

Cadeados
Te trago na palma da mão. Me sobraram dessas linhas todas uma caixa de objetos quase sem vida. Me sobraram alguns restos-papelão um gesto avulso uma garganta inflamada e estas dores internas. Na caixa da minha garagem têm um guarnapo com uma promessa efêmera, a culpa de um fracasso quebrado, as lagrimas secas e as penas de mandar embora o pó dessa última história. Onde me crio Onde a jaula do meu leão Se rompe Onde corro uma fenda Na perna, quase sempre só me restam rostos-vapor vozes-tumores que a memória me cadeou. Há guardado no papleão Da minha garagem Uma janela quebrada Um cano furado E uma lâmpada lascada. Há na garagem de mim Caixas abertas, varais enozados E perdas de tempo. Há, cavado na minha unha As sujeiras e os apreços Há a covardia impregnada nas portas erradas que eu insisti em escancarar para ver a visita de perto. Há nos fundos desse porão cadeado acasos risonhos desta incansável vida de horas mortas. Que por mais dolorida a lembrança cadeei e encadeei e nunca me livrei.

Cadeados

Te trago na palma da mão.
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida.

Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas.

Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera,
a culpa de um fracasso
quebrado,
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história.

Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou.

Há guardado no papleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada.

Há na garagem de mim
Caixas abertas, varais enozados
E perdas de tempo.

Há, cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto.

Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas.

Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e nunca me livrei.

Monday, April 10, 2006

Indiara habita
um vilarejo
de macelas.

Os pés delicados
e a boca mastiga...

Indiara é uma castanha.

Pisoteia os colchões
que a remessa
de nuvens traz.

É algodão uma vez
a cada amanhecer.

Indiara encomenda às luas
florais, rendas, alfazemas...

O relágio desperta e Indiara
abre a janela:

sálvia!


Alcançando os passarinhos
com sua entrega.


Indiara é uma elfa.
Pede ao tempo que pare
para ela passar,
pede ainda um espaço
se alastra
se garça,

fecha sua asa sobre nós.

Lentamente
abre a boca
comprimindo o lábio rosa
e a testa branca,

Indiara pede...


Indiara pede...
Para trazer-lhe as mudas folhas
caídas no caminho.

Pede..
Para não arrancar nenhuma


as
caídas


Indiara sussura.

Tuesday, March 28, 2006

Revelações

Para alguns
posso tirar a fina camada
que esconde o meu rosto.

Para alguns,
posso engradecer o meu riso,
a fim de apenas tentar.

Para alguns desses que me passam,
posso falar uma palavra alta
um palavra desistida de existir.

Posso falar a palavra morta.
Enquanto tudo aquilo que não
penso vida rasteja um chamado
de uma palavra esquecida.

Posso abolir meu corpo
gestual, ao falar.

Posso usar as palavras erradas
jogadas por momentos
em sentimentos vãos e efêmeros
que me habitam.

Direciono-me, em alguns
que me trilham ao me encontrar
que marcam meu caminho
com pedaços de pão,
milho,
e pequenos toques
de cumprimentos.

Para alguns posso dramatizar
meu drama, radicalizar
meu conceito,
criticar gullar.

Para esses que enebriam
a vontade de me ser,
que me querem acentuar
o alto,
àqueles que me perdoam
as palavras esquecidas
e as demais ditas
repetidas
posso chorar.

E ao chorar posso dizer
após,
ao me desmanchar
que não era preciso ser.

Na obviedade das lamentações
limitadas,
de toda uma tragetória
para esses,
posso me crucificar
posso tentar
na testemunha
do meu choro
na prisão-tranfiguração,
unir-me a mim.

Revelações

Para alguns
posso tirar a fina camada
que esconde o meu rosto.

Para alguns,
posso engradecer o meu riso,
a fim de apenas tentar.

Para alguns desses que me passam,
posso falar uma palavra alta
um palavra desistida de existir.

Posso falar a palavra morta.
Enquanto tudo aquilo que não
penso vida rasteja um chamado
de uma palavra esquecida.

Posso abolir meu corpo
gestual, ao falar.

Posso usar as palavras erradas
jogadas por momentos
em sentimentos vãos e efêmeros
que me habitam.

Direciono-me, em alguns
que me trilham ao me encontrar
que marcam meu caminho
com pedaços de pão,
milho,
e pequenos toques
de cumprimentos.

Para alguns posso dramatizar
meu drama, radicalizar
meu conceito,
criticar gullar.

Para esses que enebriam
a vontade de me ser,
que me querem acentuar
o alto,
àqueles que me perdoam
as palavras esquecidas
e as demais ditas
repetidas
posso chorar.

E ao chorar posso dizer
após,
ao me desmanchar
que não era preciso ser.

Na obviedade das lamentações
limitadas,
de toda uma tragetória
para esses,
posso me crucificar
posso tentar
na testemunha
do meu choro
na prisão-tranfiguração,
unir-me a mim.

Revelações

Para alguns
posso tirar a fina camada
que esconde o meu rosto.

Para alguns,
posso engradecer o meu riso,
a fim de apenas tentar.

Para alguns desses que me passam,
posso falar uma palavra alta
um palavra desistida de existir.

Posso falar a palavra morta.
Enquanto tudo aquilo que não
penso vida rasteja um chamado
de uma palavra esquecida.

Posso abolir meu corpo
gestual, ao falar.

Posso usar as palavras erradas
jogadas por momentos
em sentimentos vãos e efêmeros
que me habitam.

Direciono-me, em alguns
que me trilham ao me encontrar
que marcam meu caminho
com pedaços de pão,
milho,
e pequenos toques
de cumprimentos.

Para alguns posso dramatizar
meu drama, radicalizar
meu conceito,
criticar gullar.

Para esses que enebriam
a vontade de me ser,
que me querem acentuar
o alto,
àqueles que me perdoam
as palavras esquecidas
e as demais ditas
repetidas
posso chorar.

E ao chorar posso dizer
após,
ao me desmanchar
que não era preciso ser.

Na obviedade das lamentações
limitadas,
de toda uma tragetória
para esses,
posso me crucificar
posso tentar
na testemunha
do meu choro
na prisão-tranfiguração,
unir-me a mim.

Friday, March 24, 2006

Resolve logo

Quer todo o meu tempo
quer meu olho e meu passo
meu círculo
vicioso

quer ser meu cigarro?
quer um trago?

eu não fumo não
eu corro
desse bando


puxa meu braço,
mas não com força
entorna
escoa


pode brigar
berrar
e só puxa meu braço

que eu só
não tenho tempo
pra viciar,
nem pra fumar,

explica
grita
pode ir falando

que eu só
não tenho tempo
pra viciar
e pra emburrar.

DesvioDesviaram o teu último passo.Caso você queira voltaré proibido.A lei te deixou sem nada,a lei não é fala.O dedo apontadono teu nariz,a água escorridano meio das tuas pernaso nervosismoa brasaa cinzae finalmenteo suspiro,não te deramuma segunda chance.O sol da primaveraé escaldantee ainda sim,na ardênciada tua pelea água não te refrescou.Tua concha de mãonão regou,você procuraum simvocê procuradar a última voltado sonho imediato.A lei te proibiu de pensara lei não te deixou usaro fio-dentala lei da vida,não te trouxea aspirina,as gotas de essêncianão funcionam sem a pele.De nada adiantouo esforçovocê teve artista,que rezarpara pegaro desvio estreito`a ter que pintara carade ouro,para que te sorrisemuma notano jornal.

Varrida

Todas as escolhas
todas,
estão enfileiradas
de fronte à minha testa.

Toda a parte de mim
se embrenha nas milézimas
moléstias, amores e dores,
felicidades...
Me desejam.

Todas as coisas que cabem
nessa gaveta
transbordam
expectativas,
potes ,
baldes,
passados rostos,
passadas entradas,
pálidas palmeiras
desenhadas
no papel gasto
de um dia vivido.


Todos, todos os ideais
estão encaixotados
dentro de uma vasilha de planos.
Planos morridos,
planos quase-atingidos
metas que me rememoram
metas
metas metas,
onde vou chegar?


Nos cantos das idéias
medos de caça,
medos amendrotados
de medos,
possibilidades,
propagações
crescimentos,
escapatórias,
estradas,
panfletos para um dia,
eventos à espreita.
onde vou chegar?

Cargas, descargas,
agora
tudo pode ser eu.

E toda, toda a minha vida
se passa
na vassoura varrida do começo do dia,

onde vou chegar?

Varrida

Todas as escolhas
todas,
estão enfileiradas
de fronte à minha testa.

Toda a parte de mim
se embrenha nas milézimas
moléstias, amores e dores,
felicidades...
Me desejam.

Todas as coisas que cabem
nessa gaveta
transbordam
expectativas,
potes ,
baldes,
passados rostos,
passadas entradas,
pálidas palmeiras
desenhadas
no papel gasto
de um dia vivido.


Todos, todos os ideais
estão encaixotados
dentro de uma vasilha de planos.
Planos morridos,
planos quase-atingidos
metas que me rememoram
metas
metas metas,
onde vou chegar?


Nos cantos das idéias
medos de caça,
medos amendrotados
de medos,
possibilidades,
propagações
crescimentos,
escapatórias,
estradas,
panfletos para um dia,
eventos à espreita.
onde vou chegar?

Cargas, descargas,
agora
tudo pode ser eu.

E toda, toda a minha vida
se passa
na vassoura varrida do começo do dia,

onde vou chegar?

Wednesday, March 22, 2006

Desvio
Desviaram o teu último passo.
Caso você queira voltar
é proibido.
A lei te deixou sem nada,
a lei não é fala.
O dedo apontado
no teu nariz,
a água escorrida
no meio das tuas pernas
o nervosismo
a brasaa cinza
e finalmente
o suspiro,
não te deram
uma segunda chance.

O sol da primavera
é escaldante
e ainda sim,
na ardência
da tua pele
a água não te refrescou.

Tua concha de mão
não regou,
você procura
um sim
você procura
dar a última volta
do sonho imediato.

A lei te proibiu de pensar
a lei não te deixou usar
o fio-dental
a lei da vida,
não te trouxe
a aspirina,
as gotas de essência
não funcionam sem a pele.

De nada adiantou
o esforço
você teve artista,
que rezar
para pegar
o desvio estreito
`a ter que pintar
a carade ouro,
para que te sorrisem
uma nota
no jornal.